Talvez tenhamos tempo
Talvez ainda tenhamos tempo
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
ontem a verdade morreu
e embora o saiba todo mundo
o mundo todo dissimula:
nenhum de nós lhe mandou flores:
já morreu e não chora ninguém.
Talvez entre o olvido e o apuro
pouco antes de ser enterrada
teremos a oportunidade
de nossa morte e nossa vida
para sair por rua e mais rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo, de homem em homem,
perguntando se a matamos
ou foram outros que a mataram,
se foram nossos inimigos
ou nosso amor cometeu o crime,
porque já morreu a verdade
e agora podemos ser justos.
Antes deveríamos lutar
com armas de obscuro calibre
e por ferir-nos esquecemos
o porquê de estarmos lutando.
Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
nós acusávamos sem parar,
sem parar fomos acusados,
eles sofreram, e sofremos,
e quando já ganharam eles
e também nós quando ganhamos
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Agora não há o que fazer:
todos perdemos a batalha.
É por isso que eu penso, talvez,
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e logo mil anos de glória
para não ser e pra não voltar.
Pablo Neruda, in Memorial de Isla Negra.
Quem nunca quis uma passagem pra Pasárgada? "...Vou-me embora pra Pasárgada/ Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz/ Lá a existência é uma aventura... ... Vou-me embora pra Pasárgada/ Em Pasárgada tem tudo/ É outra civilização" (Manuel Bandeira)
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
domingo, 15 de março de 2009
Pablo Neruda - Memorial de Isla Negra
AQUI ESTOU
Limpo é o dia lavado pela areia
branca, e gelada no mar roda a espuma,
e nesta desmedida solidão
sustenta-me a luz do meu livre-arbítrio.
Mas este mundo não é o que eu quero.
SOLILÓQUIO NAS ONDAS
Sim, mas aqui estou sozinho.
Levanta-se
uma onda
que disse o seu nome, não compreendo,
murmura, arrasta o peso
de espuma e movimento
e se retira. A quem
perguntarei o que me disse?
A quem entre as ondas
poderei nomear?
E espero.
Próxima, de novo, está a claridade,
levantou-se na espuma
o doce número
e não soube nomeá-lo.
Assim caiu o sussurro:
deslizou-se para a boca da areia:
o tempo que destruiu todos os lábios
com a paciência
da sombra e com
o beijo alaranjado
do verão.
Fiquei sozinho
sem poder acudir ao que este mundo,
sem dúvida, me oferecia,
ouvindo
como se debulhava esta riqueza,
as misteriosas uvas
de sal, e dum amor desconhecido
e ficava no dia degradado
só um rumor
cada vez mais distante
até que tudo o que eu poderia ser
converteu-se em silêncio.
ARTE MAGNÉTICA
De tanto amar e andar saem os meus livros,
e se eles não têm beijos ou regiões
e se não têm um homem de mãos plenas,
e se não têm mulher em cada gota,
fome, desejo, cólera, caminhos,
não servem para escudo nem pra sino:
estão sem olhos e não poderão abri-los,
terão a boca morta do preceito.
Amei as genitais enramadas e entre
o sangue e o amor escavei os meus versos,
em terra dura estabeleci a rosa
entre o fogo e o sereno disputada.
Por isso pude caminhar cantando.
Neruda, Pablo. Memorial de Isla Negra; tradução, notas e apresentação de José EduardoDegrazia. Porto Alegre: L&PM, 2007.
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