Mostrando postagens com marcador poesia - neruda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia - neruda. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Depois de tanto tempo sem postar.... voltando com Neruda.

Talvez tenhamos tempo

Talvez ainda tenhamos tempo
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
ontem a verdade morreu
e embora o saiba todo mundo
o mundo todo dissimula:
nenhum de nós lhe mandou flores:
já morreu e não chora ninguém.

Talvez entre o olvido e o apuro
pouco antes de ser enterrada
teremos a oportunidade
de nossa morte e nossa vida
para sair por rua e mais rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo, de homem em homem,
perguntando se a matamos
ou foram outros que a mataram,
se foram nossos inimigos
ou nosso amor cometeu o crime,
porque já morreu a verdade
e agora podemos ser justos.

Antes deveríamos lutar
com armas de obscuro calibre
e por ferir-nos esquecemos
o porquê de estarmos lutando.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
nós acusávamos sem parar,
sem parar fomos acusados,
eles sofreram, e sofremos,
e quando já ganharam eles
e também nós quando ganhamos
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Agora não há o que fazer:
todos perdemos a batalha.

É por isso que eu penso, talvez,
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e logo mil anos de glória
para não ser e pra não voltar.

Pablo Neruda, in Memorial de Isla Negra.

domingo, 15 de março de 2009

Pablo Neruda - Memorial de Isla Negra



AQUI ESTOU


Limpo é o dia lavado pela areia

branca, e gelada no mar roda a espuma,

e nesta desmedida solidão

sustenta-me a luz do meu livre-arbítrio.


Mas este mundo não é o que eu quero.




SOLILÓQUIO NAS ONDAS


Sim, mas aqui estou sozinho.

Levanta-se

uma onda

que disse o seu nome, não compreendo,

murmura, arrasta o peso

de espuma e movimento

e se retira. A quem

perguntarei o que me disse?

A quem entre as ondas

poderei nomear?

E espero.


Próxima, de novo, está a claridade,

levantou-se na espuma

o doce número

e não soube nomeá-lo.

Assim caiu o sussurro:

deslizou-se para a boca da areia:

o tempo que destruiu todos os lábios

com a paciência

da sombra e com

o beijo alaranjado

do verão.

Fiquei sozinho

sem poder acudir ao que este mundo,

sem dúvida, me oferecia,

ouvindo

como se debulhava esta riqueza,

as misteriosas uvas

de sal, e dum amor desconhecido

e ficava no dia degradado

só um rumor

cada vez mais distante

até que tudo o que eu poderia ser

converteu-se em silêncio.




ARTE MAGNÉTICA


De tanto amar e andar saem os meus livros,

e se eles não têm beijos ou regiões

e se não têm um homem de mãos plenas,

e se não têm mulher em cada gota,

fome, desejo, cólera, caminhos,

não servem para escudo nem pra sino:

estão sem olhos e não poderão abri-los,

terão a boca morta do preceito.


Amei as genitais enramadas e entre

o sangue e o amor escavei os meus versos,

em terra dura estabeleci a rosa

entre o fogo e o sereno disputada.


Por isso pude caminhar cantando.



Neruda, Pablo. Memorial de Isla Negra; tradução, notas e apresentação de José EduardoDegrazia. Porto Alegre: L&PM, 2007.